A conta da saúde não pode ficar apenas para Conquista
Vitória da Conquista chegou a um ponto limite. E ignorar isso talvez seja o maior risco para a saúde pública de toda a região sudoeste da Bahia.
Os números impressionam: quase R$ 400 milhões destinados à saúde em 2026. Mais de 21% de todo o orçamento municipal comprometido com hospitais, unidades básicas, exames, cirurgias, medicamentos e atendimento de urgência. Muito acima do mínimo constitucional exigido aos municípios brasileiros.
Mas há uma pergunta que precisa ser feita sem rodeios: até quando uma cidade conseguirá sustentar praticamente sozinha uma estrutura regional de saúde?
Conquista deixou de ser apenas um município há muito tempo quando o assunto é assistência pública. Tornou-se polo. Tornou-se referência. Tornou-se destino diário de milhares de pacientes vindos de dezenas de cidades do sudoeste baiano em busca de atendimento que não encontram em seus municípios de origem.
E isso tem custo. Um custo cada vez mais alto.
A conta cresce silenciosamente dentro dos hospitais, nos prontos socorro lotados, na fila de exames, nos contratos hospitalares, nos medicamentos mais caros, na judicialização da saúde e na defasagem brutal da tabela SUS.
Hoje, em muitos procedimentos, o município paga mais para realizar do que recebe do próprio sistema público. O resultado é perverso: a prefeitura precisa retirar recursos de outras áreas para impedir o colapso da rede.
Não se trata mais de gestão eficiente ou ineficiente. Trata-se de matemática orçamentária. A conta simplesmente deixou de fechar.
O problema é estrutural. E, por isso, a responsabilidade também precisa ser compartilhada.
O Governo da Bahia não pode assistir passivamente ao avanço dessa pressão financeira sobre Vitória da Conquista enquanto a cidade absorve uma demanda regional crescente praticamente sem a contrapartida necessária. Uma rede que atende todo o sudoeste não pode ser financiada apenas pelo contribuinte conquistense.
A discussão exige maturidade institucional e compromisso federativo. Saúde regionalizada pressupõe financiamento regionalizado.
Se nada mudar, o risco é evidente: estrangulamento financeiro, ampliação das filas, sobrecarga dos profissionais, redução da capacidade operacional e descontinuidade gradual de serviços essenciais.
Quando uma cidade polo começa a dar sinais de esgotamento financeiro, não é apenas um município que entra em alerta. É toda uma região.
A saúde pública de Vitória da Conquista não pode continuar carregando sozinha um sistema que atende milhares de pessoas além de suas fronteiras. Porque, cedo ou tarde, a conta chega. E quando ela chega para o SUS, quem paga é a população.