Quando o poder começa a perguntar demais
Existe uma regra simples — e incômoda — para qualquer democracia: jornalista precisa ter liberdade para incomodar o poder. E o poder precisa ter maturidade para ser incomodado.
É justamente aí que mora a discussão que voltou a Brasília depois da atuação do Supremo em um caso envolvendo jornalista e fonte.
Não é preciso transformar jornalista em herói, muito menos ministro em vilão, para perceber o tamanho do problema. O sigilo da fonte não é um salvo-conduto para o jornalista. É uma garantia constitucional criada para proteger algo maior: o direito da sociedade de ser informada.
Porque fonte que teme ser descoberta deixa de falar.
E quando as fontes deixam de falar, a imprensa passa a ouvir apenas aquilo que o poder quer dizer.
Esse é o ponto que deveria preocupar qualquer democrata, independentemente de partido ou ideologia.
A democracia não funciona apenas porque há eleições, Congresso, tribunais e governos. Ela funciona também porque existe gente disposta a fazer perguntas desagradáveis, publicar informações que incomodam e investigar aquilo que autoridades prefeririam manter longe dos holofotes.
O problema é que o Supremo ocupa hoje um espaço extraordinário na política brasileira. Decisões da Corte interferem diretamente em debates que vão muito além dos processos judiciais.
Por isso, quanto maior o poder, maior deveria ser também a disposição para ser questionado.
Quem fiscaliza o poder também precisa aceitar ser fiscalizado.
Isso vale para o presidente da República. Para o Congresso. Para governadores e prefeitos. E vale, igualmente, para o Supremo Tribunal Federal.
Há, evidentemente, um outro lado nessa história. Liberdade de imprensa não significa licença para cometer crimes. Jornalistas não estão acima da lei, fontes também não, e o exercício da profissão não transforma informação falsa em verdade.
O Estado tem o direito — e o dever — de investigar abusos.
A pergunta é outra: até onde se pode ir sem transformar a investigação em intimidação?
Essa fronteira precisa ser tratada com extremo cuidado.
Porque, quando um jornalista começa a pensar duas vezes antes de proteger uma fonte, não é apenas o jornalista que perde liberdade. A sociedade perde uma porta de entrada para informações que talvez jamais chegassem ao conhecimento público.
E imprensa livre nunca foi feita para deixar o poder confortável.
Sua função, muitas vezes, é justamente tirar o poder da zona de conforto.
Talvez seja por isso que ela incomode tanto.
E talvez seja também por isso que, quando o jornalista deixa de incomodar, seja prudente perguntar: o país ficou mais tranquilo ou alguém simplesmente aprendeu a ficar calado?