Bahia registra quase 3 mil mortes no trânsito, e Conquista reflete avanço da crise viária
Há tragédias que chocam por um dia. E há tragédias que se repetem tanto que correm o risco de virar paisagem. O trânsito na Bahia chegou a esse ponto. Em 2024, quase três mil pessoas morreram em acidentes no estado. Oito vidas por dia. Oito famílias interrompidas diariamente. Oito cadeiras vazias à mesa. E, ainda assim, seguimos tratando o tema como se fosse apenas estatística.
Não é. É uma epidemia moderna sobre rodas.
Vitória da Conquista conhece bem essa realidade. Cidade estratégica, motor econômico do sudoeste baiano, cortada por importantes rodovias, polo de comércio, saúde e educação. Uma cidade que cresce, atrai, movimenta. Mas junto com o progresso veio também o colapso da mobilidade. Mais carros, mais motos, mais pressa, mais imprudência, mais risco.
As avenidas se enchem. Os cruzamentos tensionam. As entradas da cidade congestionam. E as rodovias no entorno seguem colecionando colisões graves. Não é preciso procurar relatórios sofisticados. Basta ouvir o noticiário diário. Acidente na BR. Batida no anel viário. Motociclista ferido no centro. Pedestre atropelado. A repetição virou rotina. E rotina é o nome mais perigoso que uma tragédia pode ganhar.
É justo reconhecer: houve investimentos. O governo estadual aplicou recursos em fiscalização, equipamentos e segurança viária. O município ampliou semáforos, sinalização e intervenções urbanas. Mas sejamos francos: quando os números seguem subindo, é sinal de que o esforço ainda está abaixo da urgência.
E existe um retrato claro desse drama: a motocicleta. Na Bahia, motociclistas representam a maior parcela das mortes no trânsito. Em Conquista, o cenário se repete. São trabalhadores de aplicativo, entregadores, pais e mães de família, jovens em busca de renda. Gente que enfrenta chuva, buraco, distração alheia e velocidade excessiva para garantir o sustento.
O trânsito não mata por acaso. Mata por escolha coletiva. Pela imprudência naturalizada. Pela fiscalização insuficiente. Pelo planejamento tardio. Pela educação que não chega. Pela ideia absurda de que correr vale mais que chegar.
A pergunta que Vitória da Conquista e a Bahia precisam responder não é quantos acidentes tivemos este ano. A pergunta correta é: quantas mortes ainda aceitaremos antes de agir à altura do problema?
Porque cidade desenvolvida não é a que vende mais carros. É a que preserva mais vidas.