De virada em virada, eleição presidencial revela um país dividido ao meio
Lula aparece agora com 51% dos votos. Flávio Bolsonaro tem 49%. Uma diferença pequena, numa eleição em que cada voto faz diferença.
Mas tem uma pergunta que precisa ser feita: afinal, o que mudou entre o primeiro e o segundo turno?
Porque Flávio Bolsonaro terminou a primeira votação na frente. Lula começou a apuração deste domingo liderando, depois foi ultrapassado e agora voltou à dianteira.
Primeiro, é preciso entender uma coisa. Essa mudança durante a apuração não significa que o eleitor mudou de opinião de uma hora para outra. Significa que os votos das diferentes regiões do Brasil estão entrando na contagem.
Mas existe, sim, uma mudança importante em relação ao primeiro turno.
E ela pode estar justamente naquele eleitor que não votou nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro na primeira rodada. Ou naquele que ficou em casa e decidiu comparecer agora.
Só que há um componente ainda mais interessante nessa eleição.
O brasileiro está votando a favor de alguém ou contra alguém?
Porque uma coisa é o eleitor votar por acreditar no projeto de um candidato. Outra, muito diferente, é votar para impedir que o adversário chegue ao poder.
E essa rejeição mútua ajuda a explicar o tamanho da polarização brasileira.
Tem gente que não quer mais quatro anos de Lula. E tem gente que não aceita a volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.
No meio disso tudo, estão milhões de brasileiros preocupados com o preço dos alimentos, o salário que não acompanha as despesas, a violência nas ruas e a qualidade dos serviços públicos.
É esse Brasil real que precisa ser ouvido.
Na Bahia, Lula conserva uma força eleitoral expressiva. Em outras regiões, Flávio Bolsonaro encontra apoio igualmente importante.
O problema é que o país parece dividido em dois grandes campos políticos, cada um desconfiando profundamente do outro.
E aqui está a questão central.
Se Lula vencer, não poderá imaginar que recebeu um cheque em branco para continuar fazendo tudo da mesma maneira.
E, se Flávio Bolsonaro ganhar, também não poderá acreditar que a vitória lhe dá autorização para governar apenas para seus apoiadores.
Porque, numa eleição decidida por uma diferença tão pequena, praticamente metade dos votos válidos terá sido dada ao adversário.
Quem vencer terá a maioria dos votos. Mas não terá, automaticamente, a confiança da maioria absoluta dos brasileiros.
E governar um país nessas condições exige muito mais do que vencer uma eleição.
Exige diálogo. Capacidade de negociação. Responsabilidade econômica. Respeito às instituições. E, principalmente, resultados.
O brasileiro quer saber se vai conseguir pagar suas contas. Se terá segurança para sair de casa. Se encontrará atendimento quando precisar de um hospital. Se o dinheiro público será utilizado com responsabilidade.
É isso que importa na vida de quem acorda cedo, trabalha o dia inteiro e não tem tempo para viver em guerra política.
A eleição ainda não terminou. Não sabemos quem será o vencedor.
Mas uma coisa já está muito clara.
O Brasil pode sair das urnas com um presidente eleito. O que não significa que sairá das urnas com um país unido.
E talvez esse seja o maior desafio de quem assumir a Presidência: compreender que governar não é continuar a campanha eleitoral por mais quatro anos.
É justamente o contrário.
É deixar a campanha para trás e começar a governar.