Editorial: A quem pertence a bola?
Por Daniel Silva
Foi preciso um ouvinte ligar para o Brasil Notícias para lembrar uma coisa simples: o que é público não pode ser tratado como privilégio. A denúncia da cobrança para uso de quadras e campos de futebol em Vitória da Conquista acendeu um holofote onde muitos preferiam sombra. O que se viu depois foi uma sequência digna de novela política: secretário se defende, vereadores reagem, microfone pega fogo — e o povo, como sempre, assiste querendo entrar em campo.
O secretário de Esportes, Chico Estrella, negou que exista cobrança indevida e falou em regras, organização, agendamento, manutenção. Tudo justo — desde que não se esqueça o principal: a bola é do povo.
Vereadores de oposição aproveitaram o passe para chutar contra o gol do governo. Natural. O debate é legítimo, necessário e bem-vindo. Afinal, não estamos falando apenas de esporte, mas de gestão, acesso e justiça social.
Mas vamos ao ponto: cobrar para usar quadra pública é como pedir ingresso para brincar no parquinho da praça. Pode até haver necessidade de organização, mas o acesso deve ser livre, amplo e garantido — principalmente para as comunidades que mais precisam de lazer, saúde e pertencimento.
O Brasil Notícias fez seu papel. Cumpriu a função jornalística de provocar reflexão, ouvir diferentes lados e dar voz ao cidadão comum. O programa mostrou, mais uma vez, que microfone aberto pode ser mais poderoso do que muita tribuna.
Resta agora que os gestores compreendam o que isso tudo significa. A pergunta que ecoa — qual o melhor tratamento da coisa pública? — precisa de resposta clara. E a resposta deve vir com transparência, diálogo e, principalmente, com um compromisso inegociável com o bem comum.
Porque, no fim das contas, a bola é pública. O campo também. E o jogo, se é para ser justo, não pode começar com barreiras.