Exclusivo: Após renúncia da antiga gestão, Unimed Sudoeste admite prejuízo milionário e abre investigação interna
A troca de comando na Unimed do Sudoeste resolveu a crise política. Mas a crise financeira, administrativa e institucional ainda está longe de ser encerrada.
Pela primeira vez desde a explosão da crise, a nova diretoria da cooperativa médica falou abertamente sobre o cenário encontrado após a renúncia da gestão anterior e admitiu que ainda não conhece a dimensão total dos problemas que atingem a instituição.

O novo presidente, Glauber Aguiar, e o diretor-superintendente, Milton Cerqueira, assumiram há apenas uma semana. Segundo eles, o trabalho neste momento é compreender os números da cooperativa, analisar contratos e identificar a extensão dos impactos causados por decisões tomadas nos últimos anos.
E as declarações chamam atenção.
A própria diretoria admite que ainda não sabe exatamente por que uma cooperativa que registrava lucros recorrentes passou a apresentar um prejuízo superior a R$ 40 milhões.
Também admite que as operações envolvendo o Hospital Andro — centro da crise que abalou a instituição — continuam sob análise.
E reconhece que existe risco patrimonial para os médicos cooperados.
De lucros à crise
Segundo Glauber Aguiar, o primeiro alerta surgiu em março, quando um parecer de auditoria externa alterou a classificação de despesas que vinham sendo tratadas como investimentos.
A mudança teve efeito devastador nas contas.
O resultado foi a apresentação de um prejuízo superior a R$ 40 milhões, provocando surpresa entre conselheiros, cooperados e integrantes da própria administração.
A partir daí começaram as auditorias, os questionamentos internos e a perda de confiança na antiga diretoria.
O que era inicialmente uma preocupação contábil acabou se transformando em uma crise institucional sem precedentes.
O Hospital Andro continua no centro das dúvidas
Os documentos divulgados anteriormente pelo Conselho Fiscal apontavam suspeitas relacionadas ao arrendamento e à posterior aquisição do Hospital Andro.
Entre os pontos questionados estavam diferenças entre avaliações patrimoniais, divergências de valores e possíveis inconsistências na estrutura da operação.
A nova diretoria confirma que o assunto continua em investigação.
Questionado sobre a diferença entre os valores citados nos documentos apresentados pelo Conselho Fiscal, Glauber reconheceu que a cooperativa ainda não possui respostas definitivas.

Milton Cerqueira afirmou que uma nova auditoria está em fase final e que somente após a conclusão será possível determinar se houve divergências relevantes, necessidade de reavaliação dos contratos ou até mesmo revisão da operação.
Traduzindo: a principal operação financeira que desencadeou a crise ainda não foi totalmente esclarecida.
“Vamos continuar investigando”
Talvez a declaração mais importante da entrevista tenha sido justamente sobre a responsabilização dos antigos gestores.
Apesar da renúncia da diretoria anterior ter encerrado a disputa política, a nova gestão afirma que as investigações vão continuar.
“Se houve indício de fraude ou não, isso vai continuar sendo apurado”, afirmou Glauber.
A fala desmonta a percepção de que a saída dos dirigentes teria encerrado o assunto.
Na prática, a nova diretoria confirma que as apurações permanecem abertas.
O risco que preocupa os cooperados
Outro ponto sensível da entrevista foi o reconhecimento de que existe risco patrimonial para os médicos cooperados.
Milton Cerqueira explicou que, em uma cooperativa, os associados compartilham não apenas os resultados positivos, mas também os prejuízos.
Embora tenha descartado impactos imediatos, ele confirmou que a atual gestão trabalha para entender o tamanho desse passivo e encontrar mecanismos para reduzir seus efeitos.
A declaração ajuda a explicar a preocupação que tomou conta de parte dos cooperados nos últimos meses.
E os clientes?
Para os beneficiários dos planos, a mensagem da nova diretoria é de tranquilidade.
Os dirigentes garantem que não existe perspectiva de interrupção de atendimentos, fechamento de serviços ou desassistência aos usuários.
Entretanto, um detalhe da entrevista merece atenção.
O próprio presidente confirmou que a cooperativa está passando por um processo de direção técnica acompanhado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mecanismo normalmente utilizado quando a reguladora identifica riscos que exigem monitoramento mais próximo da operadora.
A gestão afirma que medidas já foram adotadas para reduzir reclamações e melhorar indicadores assistenciais.
A pergunta que continua sem resposta
Depois de meses de denúncias, assembleias convocadas, editais cancelados, renúncias e auditorias, uma pergunta continua pairando sobre a maior cooperativa médica do sudoeste baiano:
O prejuízo de mais de R$ 40 milhões foi consequência de decisões empresariais equivocadas, de falhas administrativas, de problemas contábeis ou de algo mais grave?
Nem o Conselho Fiscal respondeu. Nem a antiga diretoria respondeu. E a nova diretoria admite que ainda está tentando descobrir.
Enquanto isso, cooperados, clientes, fornecedores e a própria sociedade aguardam aquilo que se tornou o bem mais valioso dentro da crise da Unimed do Sudoeste: respostas.