Facções crescem onde o Estado insiste em atirar antes de pensar
Ninguém quer ter o celular roubado. Ninguém quer ouvir tiros na porta de casa. Ninguém quer facções dominando bairros, cidades e rotas do país. Ainda assim, diante do medo e da insegurança, cresce entre parte da população a inclinação por respostas simples, instantâneas e violentas: “varrer” as favelas, permitir execuções sumárias, transformar o combate ao crime em espetáculo. É a tentação do atalho sangrento — e é, historicamente, o caminho errado.
O Brasil já experimentou essa “solução”. Em 1992, o massacre do Carandiru marcou um ponto de inflexão trágico. A ação policial, com 111 presos mortos, foi saudada por muitos como uma demonstração de força. Menos evidente foi o efeito inverso: do horror do Carandiru nasceu o Primeiro Comando da Capital — o PCC — com a missão de organizar presos e, mais tarde, de estruturar o crime fora das prisões. Em vez de eliminar a violência, o espetáculo ampliou sua capacidade de reprodução. É uma lição que deveria servir como alerta: sangue não constrói segurança; só reconfigura o problema.
Quem defende o “banho de sangue” esquece ou desconhece o essencial: o crime organizado prospera onde há dinheiro, impunidade e ligações com quem deveria combatê-lo. Facções não são uma praga natural; são ecossistemas alimentados por câmaras de dinheiro, rotas de armamento, serviços de lavagem e, muitas vezes, por gente que transita com facilidade entre o mundo ilegal e o respeitável — nas esferas política, empresarial e financeira. Apontar apenas para a favela é ver a sujeira na fronteira da casa e ignorar os cupins que roem a estrutura.

Há, ainda, uma desigualdade de tratamento que expõe um raciocínio perverso na prática do “uso da força”. Quando um político disparou contra policiais, foi preso e processado; quando a violência alcança moradores das periferias, a resposta estatal muitas vezes assume a lógica de execução. Essa distinção não é apenas moralmente inaceitável: é estrategicamente contraproducente. A legitimação de mortes seletivas mina a confiança nas instituições, alimenta ciclos de vingança e recruta mais jovens para as facções que dizem combater.
Se a preocupação legítima é enfraquecer o PCC, o Comando Vermelho e outras organizações, então o objetivo precisa ser claro e racional: cortar o fluxo de recursos e desmontar as redes que lhes dão suporte. Isso significa perseguir quem lava dinheiro, prender os fornecedores de armas, expor os operadores políticos e econômicos que permitem a infiltração do crime no jogo institucional. E não, esses atores raramente moram nas favelas: estão em condomínios de luxo, em escritórios, em gabinetes. Ignorá-los é tratar sintomas e deixar a doença avançar.
A política de “atirar primeiro, perguntar depois” é uma solução de fachada. É como envernizar um sapato com a sola furada: por fora brilha, mas a água entra do mesmo jeito. Massacres geram manchetes e aplausos imediatos para quem busca ordem com violência; não geram redução sustentável da criminalidade. Pelo contrário: alimentam ciclos de violência, reforçam narrativas de guerra e, muitas vezes, servem para eleger oportunistas que prometem ordem a qualquer custo.

Defender a eficácia da inteligência policial não é ser “defensor de bandido”. É ser pragmático. Dar prioridade à investigação financeira, às operações para cortar o financiamento do crime e à atuação integrada entre forças de segurança é um caminho que preserva vidas e produz resultados duradouros. Ao mesmo tempo, é preciso políticas públicas que enfrentem as causas estruturais do crime: desigualdade extrema, falta de oportunidades, sistemas penitenciários que reproduzem violência e negligência estatal onde a presença do Estado deveria ser mais forte.
Não adianta arrancar galhos se as raízes permanecem intactas. Não se constrói segurança com aplausos para execuções seletivas. Segurança se constrói com instituições confiáveis, justiça eficiente, investigação proativa e, sim, com políticas sociais que cortem o recrutamento do crime pela raiz. É preciso coragem política para enfrentar os poderosos que lucram com a violência — e mais coragem ainda para resistir ao canto fácil da vingança.
O Brasil cansou de ver corpos empilhados e promessas de “faxina” que não limpam nada. Conhecer nossa história — do Carandiru às facções de hoje — é condição para não repetir os mesmos erros. Se queremos um país mais seguro, precisamos praticar uma política pública que combine inteligência, justiça e prevenção. Qualquer outra opção é só espetáculo: ruidoso, sujo e, no fim, inútil.