Nunes Marques se omitiu, Zanin atropelou o TSE e a Justiça Eleitoral mergulhou no caos
O episódio mais grave deste segundo turno não foi apenas a falta de ônibus para eleitores. Foi a incapacidade das instituições de oferecer uma resposta coordenada a um problema que exigia urgência.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, foi provocado a decidir sobre a prorrogação da votação. Pediu informações, estabeleceu prazos e aguardou manifestações. Adotou providências processuais, mas não decidiu a questão principal a tempo.
E, numa eleição, o tempo é determinante.
Diante da indefinição, Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, entrou em cena e determinou a prorrogação da votação em todo o país até as sete da noite.
Na prática, o STF atravessou uma questão que estava sob análise da Justiça Eleitoral. A intervenção provocou desconforto entre ministros do próprio TSE e abriu uma discussão sobre os limites de competência das duas cortes.
O problema é que a decisão chegou quando milhares de urnas já estavam fechadas e a apuração havia começado.
O resultado foi uma confusão nacional. Algumas seções permaneceram abertas. Outras já haviam encerrado as atividades. O próprio Supremo precisou esclarecer posteriormente que urnas fechadas não poderiam ser reabertas.
É preciso separar as coisas. Garantir transporte e assegurar o direito ao voto são obrigações do poder público. Mas uma medida destinada a corrigir uma irregularidade não pode ser tomada sem considerar suas consequências operacionais e jurídicas.
Nunes Marques demorou a dar uma resposta definitiva. Zanin decidiu de forma abrangente quando o processo de votação já estava sendo encerrado.
Um deixou a decisão em aberto. O outro decidiu quando já não era possível cumprir integralmente o que havia determinado.
O episódio não prova fraude nem significa que a eleição será anulada. Mas expõe uma falha de coordenação institucional justamente no momento em que a Justiça Eleitoral mais precisava transmitir segurança, previsibilidade e confiança.
E esse é o ponto central: a legitimidade de uma eleição depende não apenas da contagem correta dos votos, mas também de regras claras e aplicadas de maneira uniforme.