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Quando o poder começa a perguntar demais

13 de agosto de 2026

Existe uma regra simples — e incômoda — para qualquer democracia: jornalista precisa ter liberdade para incomodar o poder. E o poder precisa ter maturidade para ser incomodado.

É justamente aí que mora a discussão que voltou a Brasília depois da atuação do Supremo em um caso envolvendo jornalista e fonte.

Não é preciso transformar jornalista em herói, muito menos ministro em vilão, para perceber o tamanho do problema. O sigilo da fonte não é um salvo-conduto para o jornalista. É uma garantia constitucional criada para proteger algo maior: o direito da sociedade de ser informada.

Porque fonte que teme ser descoberta deixa de falar.

E quando as fontes deixam de falar, a imprensa passa a ouvir apenas aquilo que o poder quer dizer.

Esse é o ponto que deveria preocupar qualquer democrata, independentemente de partido ou ideologia.

A democracia não funciona apenas porque há eleições, Congresso, tribunais e governos. Ela funciona também porque existe gente disposta a fazer perguntas desagradáveis, publicar informações que incomodam e investigar aquilo que autoridades prefeririam manter longe dos holofotes.

O problema é que o Supremo ocupa hoje um espaço extraordinário na política brasileira. Decisões da Corte interferem diretamente em debates que vão muito além dos processos judiciais.

Por isso, quanto maior o poder, maior deveria ser também a disposição para ser questionado.

Quem fiscaliza o poder também precisa aceitar ser fiscalizado.

Isso vale para o presidente da República. Para o Congresso. Para governadores e prefeitos. E vale, igualmente, para o Supremo Tribunal Federal.

Há, evidentemente, um outro lado nessa história. Liberdade de imprensa não significa licença para cometer crimes. Jornalistas não estão acima da lei, fontes também não, e o exercício da profissão não transforma informação falsa em verdade.

O Estado tem o direito — e o dever — de investigar abusos.

A pergunta é outra: até onde se pode ir sem transformar a investigação em intimidação?

Essa fronteira precisa ser tratada com extremo cuidado.

Porque, quando um jornalista começa a pensar duas vezes antes de proteger uma fonte, não é apenas o jornalista que perde liberdade. A sociedade perde uma porta de entrada para informações que talvez jamais chegassem ao conhecimento público.

E imprensa livre nunca foi feita para deixar o poder confortável.

Sua função, muitas vezes, é justamente tirar o poder da zona de conforto.

Talvez seja por isso que ela incomode tanto.

E talvez seja também por isso que, quando o jornalista deixa de incomodar, seja prudente perguntar: o país ficou mais tranquilo ou alguém simplesmente aprendeu a ficar calado?

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