Como R$ 12 milhões saíram da sala de aula e foram parar em contas suspeitas
Entre 2021 e 2023, recursos federais destinados à educação, saúde e assistência social em Poções, cidade do sudoeste da Bahia, deixaram de cumprir o papel de garantir merenda, transporte escolar, medicamentos e serviços sociais. Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União, parte desse dinheiro foi parar em contas suspeitas, movimentadas por empresas de fachada e intermediários.

A investigação, batizada de Operação Intercessor, revelou um esquema de desvio e lavagem de recursos públicos federais que teria causado um prejuízo superior a R$ 12 milhões. O dinheiro foi transferido da Prefeitura de Poções para contratos superfaturados de terceirização de mão de obra, financiados com verbas do Fundeb, SUS e FNAS.
Os contratos, segundo a PF, apresentavam pesquisas de preços fictícias, valores inflados, ausência de estudos técnicos e prestação simulada de serviços. Para os investigadores, uma estrutura criminosa organizada atuava em diversos municípios baianos — entre eles Poções, Encruzilhada, Barreiras e Vitória da Conquista — utilizando empresas de fachada, familiares como intermediários financeiros e movimentações bancárias atípicas.

Entre os alvos da operação estão a prefeita de Poções, Dona Nilda (PCdoB), o prefeito de Encruzilhada, Dr. Pedrinho (PCdoB), e o chefe de gabinete da Prefeitura de Poções, Jorge Luiz, que já havia perdido o mandato de vice-prefeito em 2017, após acusações de captação ilícita de recursos para campanha eleitoral.

Apesar do volume de provas e das medidas de busca e apreensão, muitas perguntas permanecem sem resposta.
Para onde foi o dinheiro desviado?

A PF estima o prejuízo em mais de R$ 12 milhões, mas ainda não detalhou o destino final dos valores.
Há suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de contas pessoais, familiares e empresas fictícias, mas o relatório policial ainda não especifica quais bens ou patrimônios foram adquiridos.
Outra dúvida é se parte dos recursos foi usada para financiar campanhas políticas locais, prática comum em esquemas de desvio de verba pública em anos eleitorais.
As investigações citam empresas de fachada, mas seus nomes e responsáveis ainda não foram divulgados oficialmente.
Os investigadores apontam que familiares e aliados políticos dos gestores atuavam como laranjas, controlando as contas onde os repasses eram feitos.
Sem a identificação dessas empresas, não é possível dimensionar quantos contratos seguiram o mesmo modelo de fraude, nem se há vínculos diretos entre elas.
E a reação da população?

Até o momento, não houve manifestações públicas expressivas nas cidades envolvidas.
Moradores de Poções e servidores municipais ouvidos de forma informal relatam indignação e descrença, mas sem articulação coletiva.
Os conselhos municipais de educação e saúde, que têm função fiscalizadora, ainda não se pronunciaram oficialmente, e as Câmaras de Vereadores não anunciaram abertura de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).
O silêncio contrasta com o tamanho do escândalo e levanta outra pergunta:
quem, afinal, está defendendo o dinheiro que deveria estar nas escolas, hospitais e programas sociais da região?