A Justiça não pode ter camarote
O Supremo Tribunal Federal decide hoje se permite investigar um de seus ministros. E não deveria haver drama nessa pergunta. Se há fatos relevantes, investigue-se. Ponto.
Mas o Brasil aprendeu a desconfiar quando a regra muda conforme o endereço do investigado. Para o cidadão comum, uma suspeita pode significar busca, apreensão, exposição pública e anos de processo. Para os poderosos, muitas vezes aparece a blindagem, o sigilo conveniente, a conversa de bastidor e a tese de que investigar é atacar a instituição.
Não. Atacar a instituição é protegê-la da verdade.
O STF passou anos ensinando ao país que ninguém está acima da lei. Agora precisa provar que essa frase vale também para quem veste toga.
Alexandre de Moraes tem direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Evidente. Mas não tem direito a uma zona de imunidade moral, onde mensagens, encontros e contratos simplesmente não possam ser examinados porque envolvem um ministro da Corte.
Abrir investigação não condena ninguém. Recusar investigação diante de elementos que precisam ser checados, aí sim, condena a credibilidade do Supremo.
A Justiça que investiga prefeitos, deputados, empresários e cidadãos não pode criar um camarote para si mesma. Porque, quando a Justiça se protege mais do que protege a lei, ela deixa de ser Justiça e vira corporação.
O STF não está julgando apenas um ministro. Está julgando a própria coragem de ser transparente.