Crise da Unimec expõe caos na saúde pública e acende alerta em Vitória da Conquista
O caso do Hospital Unimec expõe, de forma contundente, uma ferida antiga da saúde pública brasileira: a dependência do Estado em relação à estrutura privada para manter serviços essenciais funcionando.
Em Vitória da Conquista, o roteiro já conhecido voltou a se repetir. Um hospital privado anuncia a suspensão do atendimento pelo SUS alegando inviabilidade financeira. A prefeitura reage, a Justiça intervém, pacientes se acumulam nas portas de outras unidades, profissionais trabalham sob pressão e, no fim, todos correm para costurar uma solução emergencial.
Mas é preciso dizer com clareza: quando um hospital consegue paralisar parte relevante da rede e provocar superlotação imediata em outras unidades, o problema não começou naquele anúncio. O problema começou muito antes, quando o sistema público passou a depender excessivamente de um único prestador para sustentar uma demanda que deveria estar distribuída e planejada.
Do lado da Unimec, o discurso é empresarial: custos elevados, tabela defasada, operação insustentável. É um argumento legítimo. Nenhuma instituição sobrevive acumulando prejuízos indefinidamente.
Do lado do poder público, há a defesa da legalidade, dos contratos e da responsabilidade fiscal. Também é legítimo.
O que deixa de ser legítimo é a população virar refém desse impasse recorrente.
Porque, enquanto planilhas são debatidas em gabinetes, quem sente o impacto é o cidadão que espera por atendimento. É a família angustiada na recepção lotada. É o profissional de saúde que precisa escolher prioridades em ambiente de crise.
A verdade é dura: a Unimec mostrou força porque a cidade ainda depende dela. E a prefeitura mostrou fragilidade porque ainda não construiu alternativa suficiente.
No fim das contas, ninguém vence quando a urgência para, quando a emergência superlota e quando a saúde vira instrumento de pressão negocial.
Vitória da Conquista precisa tirar uma lição desse episódio. Saúde pública não pode viver de remendos, improvisos ou acordos de última hora. Precisa de planejamento, diversificação da rede e contratos sustentáveis.
Porque hospital não pode fechar portas para pressionar. E governo não pode esperar a crise chegar para agir.